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Grávidos e Felizes

Quem disse que gravidez é uma exclusividade feminina? Homem também engravida. Não na barriga, mas na cabeça. Ainda existe, lógico, aqueles que agem como se nada de diferente estivesse acontecendo. Um número cada vez maior, no entanto, quer ser mais ativo nos nove meses. Eles se envolvem (não perdem um ultra-som), dão palpites (no modelo do carrinho do bebê), fazem planos (meu filho vai se formar em Harvard!) – e, claro, criam muitas planilhas de custo. O que não se costuma levar muito em consideração é que, embora não seja o protagonista, o ‘grávido’ também sofre uma profunda transformação nas 40 semanas. Tem angústias, inseguranças e medos. E, o pior, normalmente esses sentimentos ocorrem de maneira e em ritmo diferentes dos da parceira. Conclusão: grávidas esperam uma coisa e o marido geralmente vem com outra. Pode parecer estranho, mas a falta de sintonia é perfeitamente normal. ‘O segredo é assumir que homens e mulheres não pensam igual e por isso terão expectativas diferentes. Mas um complementa o outro’, diz o psiquiatra Luiz Cuschnir, autor do livro Homem sem Máscaras.

Com sua experiência no GAMP – Grupo de Apoio à Maternidade e Paternidade, a enfermeira obstétrica Dóris Ammann Saad observa que os maridos querem orientação. ‘Eles passam a gravidez assustados. Tudo é um grande mistério. Não é fácil para homens estarem no papel de coadjuvantes e apenas assistirem à gestação dos filhos’, explica. A vida dos futuros pais torna-se ainda mais difícil pela falta de referências. Os pais desses pais não eram como eles querem ser. Não existe um modelo a ser seguido. ‘Minha geração está aprendendo sozinha’, constata o jornalista Humberto Saccomandi, que uniu-se ao colega Cláudio Csillag para escrever O Manual do Grávido, um bem-humorado guia para homens. ‘O marido não é uma mulher, não sabe o que é passar por alterações físicas e hormonais tão radicais. Mas mesmo sem entender, podemos ficar ao lado, ser companheiros, até rir com as mudanças de humor. Nossa função é a de redutor de tensões.’

Nem todos eles, é claro, pensam assim. Muitos escondem as angústias. ‘Isso ocorre porque os homens têm um processo de defesa, não querem se mostrar inferiores. Preferem se distanciar da gravidez e da mulher a assumir que também possuem um lado frágil. Para dar certo, ele precisa expor os sentimentos à companheira. É uma troca muito enriquecedora’, argumenta, em causa própria, o obstetra Flávio Garcia de Oliveira, pai de sete filhos e autor do livro Bebê a Bordo – Guia para Curtir a Gravidez a Dois. Aqui vocês vão conhecer um pouquinho do que se passa no coração masculino em todas as etapas da gravidez. Que vocês vivam felizes os nove meses!

Primeiro trimestre
Quando descobrem que estão grávidos, os homens dividem os sentimentos entre alegria e pontadas de angústia sobre o que lhes espera. Estamos aqui falando de pais para os quais a gravidez não é totalmente indesejada. Para quem vive uma relação estável ou até já vinha tentando produzir um bebê, a notícia é motivo de euforia. O que manda mesmo no início é a sensação de que agora a vida faz algum sentido. Ele vai ser pai, provou sua fertilidade, repassou seus genes e já pode dizer que tem uma família. ‘Quando vi o resultado positivo, senti que ganhei uma carteirinha para um clube restrito’, conta Giorgio Antunes, 32 anos, corretor de seguros. ‘Meus amigos já têm filhos e comecei a notar que estava chegando a hora de dar minha contribuição no crescimento da humanidade.’ Há aqueles que entram em pânico. Um frio na barriga, um turbilhão de dúvidas. É o medo de não conseguir mais tomar cerveja com os amigos em paz, um sentimento de ‘não cuido da minha vida direito, como vou educar uma criança?’, ou ainda, algo mais comum como ‘vivo parcelando as despesas, como sustentar um filho?’. Na gravidez do primeiro filho, o fotógrafo publicitário José Carlos Buldrini, 53 anos, ficou bem receoso. ‘Tinha medo de não dar conta das despesas e de não ter mais tempo para fazer tudo que eu fazia antes’, revela. Agora, ‘grávido’ pela segunda vez, está completamente descolado – e mais tranqüilo. ‘Aprendi que a gente consegue administrar muito bem o tempo.’

De cara, no entanto, os futuros papais são submetidos ao choque das alterações de humor da mulher e, ah!, sim, aos fatídicos enjôos. Alguns homens não se importam de correr ao supermercado às 3 da manhã em busca de romã para a mulher cheia de desejos. Para outros, aquilo tudo parece coisa de E.T. Até tentam aceitar tantas transformações, pisam em ovos para não magoar a companheira, mas, no fundo, no fundo não conseguem entender como alguém pode estar gargalhando em um minuto e se debulhando em lágrimas no seguinte. Uma mulher enjoada é uma prova e tanto para o amor de um homem. Ela fica mal-humorada, quase não fala, não quer se movimentar – sem falar na aparência, verde-tom-de-divisória. ‘Fiquei muito assustado. Não imaginei que uma mulher pudesse enjoar tanto. E ela enjoava de tudo: de comida, de amigos, de programas de televisão. Eu ficava tentando afastar o que enjoava dela’, lembra o bem-intencionado Giorgio. Como regra, para passar por essa fase, eles relevam tudo como um sacrifício em nome do bebê, algo como ‘faz parte do pacote’. Alguns casais adotam saídas alternativas. Evitam muito contato nos dias críticos. Assim que o enjôo passa, tudo volta ao normal. É melhor não fazer grandes questionamentos, como: ‘Por que você está sentindo isso?’ Informação acalma os ânimos masculinos. Os homens vão entender como se dão as alterações hormonais que provocam essa variação de humores na grávida. E brincar é sempre uma boa saída para amenizar o clima.

Segundo trimestre
Para elas, essa é a fase mais gostosa: acabaram os enjôos, a energia volta quase ao normal, a barriga já aparece, mas ainda não pesa. Para eles, é quando a gravidez se torna real. A emoção do primeiro ultra-som pode trazer junto uma profunda angústia. E, num primeiro momento, isso pode ser traduzido em uma necessidade urgente de planejar o futuro. As preocupações financeiras são freqüentes: procurar o segundo emprego, uma casa maior, um carro mais espaçoso. Querem saber onde o bebê vai ficar, como será sua educação. Questões que só poderão ser resolvidas no futuro, mas rondam a cabeça do homem desde já.

É nessa fase que alguns também ficam com ciúme da mulher, já que a atenção, até a da mãe dele, é toda para a grávida. O parceiro pode, então, boicotar o processo, fazendo a mulher trabalhar demais. O psiquiatra Cuschnir explica que o ciúme ocorre porque o homem não tem o bebê dentro dele. A solução é compensar de alguma forma. ‘Alguns procuram o contato físico com a mãe, mexem na barriga, escutam as batidas do coração do filho’, diz Cuschnir. Outros se aventuram nas compras. ‘Quis logo me relacionar com o meu filho. Por isso, sempre conversei com ele. Li que o timbre da voz masculina acalma o bebê. E fiz questão de comprar o primeiro presente, que tinha muito de ver comigo: um mordedor azul’, conta o dentista Luís Carlos Martinho Lucas, 37 anos. Para alguns, a relação com o filho só vai começar na hora do nascimento ou até mais tarde. ‘Cada um tem uma velocidade e não se deve desmerecer um homem só porque ele levou mais tempo para se sentir pai. Ele não será melhor ou pior’, alerta Dóris.

Nesse período, o homem mantém mais contato com um novo personagem: o obstetra. Para alguns o médico provoca ciúme, para outros se torna um parceiro. Nas consultas, os pais têm todas as informações sobre as transformações que a companheira está passando. Quando estabelecem uma relação de cumplicidade com o obstetra, contam tudo que a mulher faz, querem saber quanto deve engordar, qual o melhor creme anti-estrias, tomam uma postura administrativa da história. Humberto, por exemplo, telefonou para o obstetra da mulher. Queria saber se podia colocar um fone de ouvido na barriga da esposa para que a fiAs preocupações em preservar o corpo da mulher têm por trás um interesse próprio: as expectativas sobre a vida sexual. A pergunta é simples: aquela mulher com quem eu casei vai reaparecer depois que o bebê nascer? Alguns ficam animadíssimos com as novas formas e acreditam que hoje em dia ninguém se transforma em matrona. ‘Acho minha mulher linda, grávida. Mas não me preocupo com o que vai acontecer depois, como ficará nossa vida sexual. Não casei com o corpo dela e, sim, com um todo’, diz o dentista Luís. Nem sempre é assim. ‘Certos homens ficam mais ligados às mudanças físicas da mulher, têm medo de ela se descuidar e isso acarretar em uma diminuição da libido’, explica Cuschnir. Há até quem não consegue ter relações com uma grávida. Falar sobre o que está sentindo, com delicadeza, é o melhor. Do contrário, ressentimentos podem desgastar a relação por muitos anos. lha ouvisse músicas infantis.

Atitudes legais para eles
  • Estar junto com a esposa na hora de pegar o resultado positivo.
  • Relaxar, mesmo que a sensação seja de que o mundo vai acabar – melhor começar a gestação em um clima bom.
  • Não esconder as emoções. Quando se sabe o que o outro está sentindo, a vida fica mais fácil. Tome cuidado com frases que podem ser mal interpretadas como ‘será que era a hora certa de a gente ter um filho?’. A companheira vai entender isso como rejeição.
  • Assumir o lado administrativo natural dos homens. Planejar questões como o melhor caminho para a maternidade alivia a vida da mulher.
  • Repare em como a sua mulher pode ficar linda, mesmo com um barrigão. Note o brilho no olhar, os cabelos mais saudáveis, a pele lisinha. Fará bem à auto-estima dos dois.

Terceiro trimestre 
Finalmente as emoções se encontram. A preocupação do casal, além de preparar a casa e o enxoval para a chegada do bebê, é técnica. Qual a hora de ir para a maternidade, que tipo de parto, quais os procedimentos médicos? Como as mulheres estão bastante emotivas nessa fase, é um alívio ter a racionalidade masculina para ajudar. É nessa etapa que muitos homens querem saber o que significam palavras que nunca fizeram parte de seu universo – ‘episiotomia’, já pensou? -, ler livros e revistas especializados. Eles querem detalhes sobre a saúde do filho que vai nascer, mas também que a mulher saia inteira da sala de parto. ‘Eles passam a dar opiniões sobre os procedimentos. Já vi casais ter brigas homéricas sobre a escolha do tipo de parto. Mas isso é raro. A maioria coloca seu ponto de vista e respeita a decisão da mulher’, conta o obstetra Flávio Garcia.

Nessa hora, acumular as funções de futuro pai e obstetra pode ser uma boa. ‘Tenho vantagens como avaliar diariamente como está evoluindo a gestação e até de saber que vai ser difícil a gente entrar na maternidade com um alarme falso’, brinca Luiz Carlos Dorgan Jr., 41 anos, obstetra. ‘Por outro lado, a gravidez fica sem muitos mistérios.’ Luiz Carlos não perde por esperar. Obstetras experientes na arte da paternidade garantem: nenhum nascimento é mais emocionante do que o do próprio filho. Mesmo para quem já fez centenas e centenas de parto. Tudo, acredite, tudo isso ficará para trás assim que o pai (tenha ele a profissão que tiver) trocar seu primeiro olhar com seu filho. Ele vai se sentir um verdadeiro super-herói. Como no filme Os Incríveis.

Emoções no tempo
1° trimestre

  • Choque ou surpresa ao receber a notícia.
  • Sensação ou noção de formar uma família.
  • Desafio de se adaptar às mudanças de humor da mulher grávida.

2° trimestre

  • Preocupação financeira e dúvidas em relação a dar conta de cuidar da família.
  • Necessidade urgente de planejar o futuro do filho.
  • Ciúme da atenção que a esposa passa a receber.
  • Interação com o bebê na forma de conversas e compras de presentes.
  • Expectativas sobre como ficará a aparência da mulher e a vida sexual.

3° trimestre

  • Preocupação e cuidados com a saúde da mulher e do bebê.
  • Interesse pelos procedimentos médicos e detalhes do parto.
  • Planejamento prático: o melhor caminho para a maternidade, as providências com o plano de saúde e com o parto.
  • Sentimento de sentir-se um herói com o filho nos braços.
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